quinta-feira, 11 de agosto de 2011

BRASIL, BRASILEIRO...


Pode-se viajar por todo um país em diversas ocasiões. Desconhecendo-se a alma de seu povo é como nunca se tivesse ali pisado.

            Assim digo compadre, bons tempos aqueles... Lembra-se das histórias contadas por nossos avôs, quando embrenhados no sertão a fim de arrebanhar terra, gado e riqueza? Mesmo acusados de morte, saques, sevícias e vilania foram homens de extrema coragem. Ajudaram a construir cidades, preservaram patrimônio obtido na raça ou no tiro e ainda se deram ao luxo de consolidar liderança política temida e respeitada. Com justa razão tornaram-se coronéis sem farda, quepe ou japona, salvo serviço de integração nacional, necessário reconhecer. Não fossem bravuras e descomedimentos, acrescente-se a maluquice do Juscelino, talvez este país ainda estivesse a ver navios, olhos voltados para o mar.
            - Não tenho dúvidas. O Brasil continente foi edificado no desejo de progressão individual. Por conseqüência, a coletividade dele se beneficiou. O problema de Brasília é distinto - JK aliou a doidice com a visão de estadista.
- É verdade. Era menino e por ser apenas criança me deixavam permanecer na sala de visita onde, à noite, os adultos se reuniam para tratar de assuntos de interesse comunitário, conforme diziam. Mas eu compreendia tudo quanto falavam. Poderia resumir numa palavra – politicagem. Assim cresci aprendendo como servir o povo sem prejudicar a conveniência pessoal. 
- Compadre; ontem recordei de uma legal. Sabe a diferença entre o paulista, o carioca e o mineiro?
- Huuum...
- Todos eles têm encontro marcado com a gente. O paulista, ao chegar, confere as horas. Desculpa-se pela meia-hora de atraso e diz aflito: foi o trânsito! O carioca, na malemolência praiana, surge muito depois do aprazado e explica: confundi-me. O compromisso era de manhã? Não fosse o qüiproquó tinha vindo cedo. Perdi tempo galinhando na praia. Mil perdões. O mineiro não aparece. Passa semana, cruza com você na rua e com singela simpatia, abraça e justifica a ausência. Estou em falta, sei disso. No máximo na próxima quinzena almoçaremos lá em casa. Telefono confirmando. Fica tranqüilo, acertaremos os ponteiros no particular!
- Boa. Seu pai contava uma ótima. Dois ladrões de gado, um deles paulista, outro mineiro, conheceram-se numa rodoviária do interior, fizeram sociedade. Combinados na forma de repartir lucros saíram a trabalho pelos campos. Em determinada ocasião, do alto de uma montanha, avistaram pradaria imensa. Naqueles pastos, centenas de reses. O paulista entusiasmou-se. Vamos descer depressa e roubar no mínimo trinta vacas. O mineiro, cauteloso, apenas recomendou ao comparsa - espera anoitecer. Então descemos e no silêncio, roubamos o rebanho!
            - Papo cabeça é jóia. Falando em jóia compadre, eleição de novo. Democracia é coisa fina; quando pensamos não prestar para nada, ela mostra valor e alimenta conversa de praça. Grande invenção! Serve para descobrir o que pensa nosso vizinho, a turma do bairro e de modo especial, a maioria do povão... O dia do voto é o único dia em que o canhão vale a mesma coisa que o caderno escolar!
            - E homens e mulheres se igualam na realidade. Saia, calça, dinheiro e pobreza, tudo equivalente!
            - O próximo pleito mexe pouco com a galera verde amarela. Agora é litígio tapa-buraco, exceto nas metrópoles. O negócio grande é mais a frente. A movimentação sucessória do maioral começou. Nunca dantes se conversou tanto, entre paredes, sobre alianças, compromissos mútuos, noivado e matrimônio.
                                                                       ***
            Cortando a conversa: um primeiro elefante passa voando baixo, logo acima da cabeça dos interlocutores. Coisa estranha demais para a compreensão humana.
                                                                       ***
            - Você viu? Deve ser ilusão. Alefante não avua!
            - Quem afirmou tal barbaridade? Na prática a teoria é outra. Claro que elefante voa. Basta calibrar o bater de orelhas. Repara só a leveza dos que vêm atrás, conduzindo passageiros nas costas. Bonito além da conta, sô!
- Contando a realidade, quantos acreditarão? Vamos continuar quietos até segunda ordem.
            - Compadre; fomos os pioneiros nesta observação?
            - Se pioneiros, não atesto. Entretanto, vou confirmar. Eles voavam seguindo rota planejada. Todos em fila. Cada um deles com sua picardia, mantendo personalidade.
            - Putz grila, meu! Estão voando para destino único. Deixa pensar – ali o norte, lado oposto o sul, nascente leste, crepúsculo oeste.
            - Você está refletindo como estou ajuizando?
            - Tradução, compadre, tradução! Nesta dancei...
            - Elementar, meu caro. Querem achar ninho aconchegante para pousar. O retiro situa-se aonde? No coração das Gerais. Recepcionados com modéstia e prudência dirigem-se ao cafezinho com pão de queijo, sala e mesa palaciana honrada com a presença dos ilustres visitantes. Gastam a tarde em cochichos.
- Imagino as manchetes: BELÔ, ABRIGO SEGURO PARA ELEFANTES VOADORES.  Morou no lance?
 Política é nuvem que se altera com a força do vento. Quem viver verá!
O cronista, porém, ao contrário de muitos, sempre respeitou o trabalho dos bruxos, feiticeiros e dos mestres tecelões...
            

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