terça-feira, 2 de agosto de 2011

O HOMEM DO ESPELHO

Intrigante o diálogo entre mim e aquele homem do espelho. Nossos rostos eram idênticos, os trejeitos iguais, simultâneos. Pensei tratar-se de indivíduo vinculado à arte cênica, quando explicaram ser, apenas, minha imagem refletida. Permaneceu o ceticismo. Seria mesmo?
 Somente mais tarde resolvi dirimir a dúvida infantil.
 Existe algo melhor que conferir idéias? Perguntar ofende? Respostas, às vezes, se tornam inoportunas ou indiscretas Fortalecendo coragem, iniciei conversa programada no subconsciente.
- Afinal, que és?
- Simples pedaço de vidro, sobreposto a uma aplicação de cloreto de estanho e pinceladas de prata.
- Excelente subterfúgio. Reduziste tudo a respeito de coisa alguma.
- Agora, indago – pensaste no que realmente és? Afasta a interrogação nunca satisfeita pela humanidade – “como saber, quando nem consigo explicar de onde vim, nem para onde irei?”  
- Vício de retrucar. Deixa ver... Um Ser Humano comum, pleno de defeitos, desejoso de realizações terrenas, preocupado de quando em vez com assuntos transcendentais. Pouco mais, pouco menos, não recordo. Aliás, a morte não me assusta. Tampouco oferece alegria antecipada. O Homem não lamenta o que vive ou o que morre. Ele é para a morte desde o nascimento. Como encarar o além, assunto para nova conversa. Penaliza-me abstrações que nos reduzem a poeiras estelares sem responsabilidades cósmicas. Que dizes?
- Objetos não raciocinam. Escutam e silenciam. Apresentam-se aos olhos dos insensatos como entidades inanimadas. No máximo, servem para atiçar o intelecto de as criaturas. Por esse motivo, insisto. Faça um exame existencial – como enxergas o teu interior? Sou tua efígie, não teu ego! Através dele obterás respostas a propósito de tuas curiosidades, inquietações, desassossegos, sonhos, atitudes... Em alguma ocasião meditastes acerca de segredos arquivados nos túmulos de um cemitério? Todos escondem histórias. A maioria, fascinantes. Enigmas de jornadas inconclusas. A vida é contrato de risco. Fracassar, perder, ser vaiado, faz parte das cláusulas. Quem se aprisiona num casulo com pavor de enfrentar perigos, corre risco mais grave. Enterrar a consciência. Fui claro?
- Olhar o superficial nos impede enxergar o que desejamos ver. É quanto queres transmitir?
- Chegaste ao essencial. Fugir da verdade será ingênuo. Inútil ludibriar quem descortina tua essência.
Modo geral as pessoas, cedo ou tarde, desmoronam. Não devem se apavorar diante de catástrofes. Por que assustar quando se deparam com a obrigação de soterrar suas sementes? O grande obséquio a fazer a uma semente é sepultá-la. Somente assim surgirá uma nova planta. No recomeço da luta, os cidadãos readquirem a autoestima... A seguir, segurança. É quanto interessa. Acredito estarmos a atravessar os umbrais da filosofia. Não tinha intenção.
- Uma das formas mais terríveis de solidão é alimentar os monstros que se alojam em nossos cérebros. Ninguém é totalmente dispensável. Ninguém totalmente perfeito a ponto de servir de paradigma ao comportamento da sociedade. Todos carregam um fardo. Os fracos o rejeitam. Os fortes não se envergonham de mostrar fragilidade. Aceitam ajuda para completar tarefas. A humildade é virtude. O isolamento social, ruim. O isolamento em que se perde contato com o próprio espírito, porém, é terrível. As crises não afastam amigos, apenas os selecionam. Convém evitar decepções.
 - Depois de tudo, persistes em manter a figura de mero objeto sem poder de discernimento? Tu estimulas reflexões. Como esquivar-me?
- Foste tu a aproximar-se. Permaneço preso à parede, quieto no meu canto. Agora, pensa. Por acaso essas considerações não seriam unicamente tuas? Fui mero instigador. Há um fato a considerar. Os homens são mestres em fantasiar condutas. Enganam consciências, transferem culpas, tergiversam a respeito do óbvio ululante, fingindo nada distinguir. Agora, ao espelho, impossível tapear.
- Poderias bater mais leve. A forma de meu caminhar no mundo depende exclusivamente de mim? Não sou eu e as circunstâncias? Não nasci puro e a comunidade me corrompeu? Tornei-me o lobo de mim mesmo? Perduram mais coisas entre o céu e a terra superiores à minha competência de entender o Universo?
            - Desse modo afirmaste. .A Sabedoria dispensa cérebros infalíveis. Entretanto exige que as mentes reconheçam os limites da razão terrestre. A cada um conforme seu poder de compreensão. O resto é Amor. Amor Verdade, ainda não alcançado ou absorvido pelos mortais. Deus é carente de Amor. O Mandamento principal é uma súplica: Ame teu Criador, como Eu tenho amado as criaturas de todas as espécies. Acima de tudo e de todas as dificuldades Ame teu Pai. A seguir, o Próximo, que é teu Irmão! Não avalias meu sofrimento ao ver o mais querido de meus filhos na Cruz. Por Amor permiti se consumasse a Redenção. Não é hora de revelar a Verdade libertadora.
            - Por que demorei décadas sem ousar prosear contigo? Fizeste o papel de competente terapeuta. Objeto inanimado, pedaço de vidro... Pois sim !
            - Não me atribuas culpas. Até a decisão de mudar-me de lugar estás adiando outono após outono. És indeciso para adotar pequenas providências caseiras. Tudo quanto ascende, converge. Não desesperes, nem percas a esperança de perceber quão complexa construção de o Sistema programado pela Divindade. Gostei do diálogo. Amanhã recomeçamos?
            - Encontro marcado. O hábito de barbear-me toda manhã traz surpresas. Incrível como descobri tão perto amigo confidente, capaz de levar-me a ponderar sobre meu interior. Não contestes a assertiva. Os pensamentos se foram recíprocos. Conquistar amigos implica em encontrar enormes tesouros.
            - De minha parte, combinadíssimo. Todavia, um alerta. Detesto amizade furada.
- Inté. Promessa é dívida.
             

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