quarta-feira, 8 de junho de 2011

HUMOR À CUSTA DE TERCEIROS


           Num livro qualquer, em página que não recordo, encontrei pensamento para todo sempre perpetuado na memória – se nossa inspiração vem de trabalho alheio, classificam de plágio. Caso fiquemos catando produções de terceiros, ajustando frases até se fabricar um texto, o mundo se espantará com nossa capacidade de pesquisa. O cinismo do esforço despendido é quase o mesmo. O resultado da ousadia completamente diverso. Basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir para comprovar a assertiva. Através do Google e seus concorrentes tornou-se fácil preparar teses e monografias sobre assuntos complexos, dos quais se ouviu alguma coisa à distância.
Criou-se, em conseqüência, um sistema de falso aprendizado no processo educacional de quem se deixa aprisionar pelas vantagens oferecidas na internet.
Para satisfazer necessidades escolares o obstáculo a vencer é ridículo. Basta transmigrar o conteúdo da telinha para as laudas de papel dispostas junto às impressoras. Desta maneira, milhares de criaturas concluem cursos universitários ou quantos mais existam.
Que se despreza? A Sabedoria. Que se desdenha? As benesses da Cultura. Nenhuma surpresa, portanto, estatísticas que demonstram o avanço do volume de analfabetos funcionais nas filas do mercado de trabalho. Muitos professores, por comodidade ou desalento, são cúmplices desse crime lesa juventude. Alguém duvida?
A patota conversava a respeito quando, altivo de independência conjugal, o Genebaldo, pródigo neto de coronel usineiro, cabra bom de conversa, instalado em sumpaulo, vivendo à custa da generosidade do vovô ricaço, assentou-se no lugar de costume e comunicou à platéia estar ad-eternum descasado da Lucinha.
 Assim explicou a razão de sua ausência ao encontro diário naquela mesa de bar, curtindo desilusão. Precisou cuidar da mudança da sem-vergonha.
Aventou-se hipótese difamatória - até a próxima recaída de paixão pela mulher que lhe devolvia são e salvo ao mundo, curado de porres homéricos ou helênicos. Afinal, como ninguém, ele cumprira, até ontem, a suja tarefa de umedecer os tapetes da casa, madrugada, sim, noutra, também. Um estróina.
Asneira presumir coisa feita ou despacho de encruzilhada.
Palavra: raríssimo encontrar sujeito tão decidido em manter a atitude apregoada. Mas, ao responder os porquês do insucesso matrimonial (existem mínimas diferenças envolvendo situações de cama, mesa e banho) foi claro:
- Cansei de exploração. Incompatibilidade cultural e de gênios.  Erro de síntese e análises díspares sobre verdades incontestes. Idealizei ser a paquera a aquarela do amor. Engano. Sexo é prosa, amor poesia. Não vivemos nenhuma das situações. A única coisa em comum que a arataca desejava era conta bancária conjunta. Aqui, farroupilha!
Aprimorou o sotaque nordestino, embarcou na peroração.
- Gastava absurdos em cremes e óleos na esperança de embelezar-se. Ao encarar o espelho não se reconhecia. Aliás, os espelhos deveriam raciocinar duplamente antes de refletir realidades. De ilusão também se vive, ó gente!.
 A vida não é um conto de fadas, mas um conto de fatos que acontecem quando estamos acordados. A sirigaita julgava-se linda além da conta. Numa manhã, encarando seu rosto uva passa perguntei à queima roupa - se tiver de recomeçar tudo de novo, vai apaixonar-se por si própria, novamente? Ofendeu-se.
            Mestre Cuna procurou interromper as lamúrias.
Inútil. Pau-de-arara, quando desembesta, ninguém segura.
Prosseguiu a lengalenga
             - Aconteceu pior. Mostrou seu lado superficial, escondido no fundo da cachola. Percebi que de profundo tinha apenas o sono. Minha reação foi retornar às origens. Na minha terra não se compreende café frio, champagne choco e mulher histérica. Por sinal, contrariava meus íntimos desejos. Era vadia na cozinha e cozinheira no quarto de dormir. Faltava gemido na sacanagem, zunido de molas no colchão da alcova.
            O desastre final sucedeu, mesmo, na presença surpresa do tio-padrinho.
            O sujeito veio à Sampa dar uma geral na vida do afilhado. Fazendo teatro, a mulher adentrou na sala. Colocou-se a berrar colérica.
            - Genebaldo, o vizinho tá, de novo, peladão no terraço, tomando banho de sol. Faz reclamação pro síndico.
             O inspetor sertanejo reagiu.
            - Filhote, abre os olhos. Mulher casada, que enxerga homem desnudo, fora o marido e não desmaia – é suspeitíssima! Joga a rameira no lixo ou avisarei o coronel-vovô sobre a chifrada.  Na certa, vai cortar o mensalão.
             Daí a firmeza.
- Coloquei na cabeça o chapéu de couro de dar coragem, providenciei um apê para a falsa madama, fiz o tal depósito hospedagem. Tchau e benção.
- Nada impressiona. Já estive em todas as festas da cidade, comentou intruso incorporado ao grupo, pelo jeito mestre na arte de escutar baboseiras.
Manifesto opinião pessoal.
            Na história faltaram três personagens: a bicha confidente, o cafajeste abutre e o psicanalista de plantão. A bichinha para ilustrar a narrativa. O cafajeste para apimentar o relato e o psicanalista para decifrar os motivos de o escriba pinçar aqui, ali, acolá, sentenças de terceiros e organizá-las a ponto de escrever a crônica, diga-se de passagem, nada cibernética! 
BEBAS...

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